terça-feira, maio 14

Asas




Lá, sobrevoando uma sacada, num dia frio com fios de sol, no pé de qualquer montanha, havia um anjo.

Em busca de nada, cheio de si, sem vontades nem quereres, sobrevoando, a vida.

Ali, sobrevoando a mesma sacada, num dia ainda mais frio pra ela, já sem muita força, havia uma Borboleta.

Em busca de tudo, vazia de si, cheia de vontades e um só querer, sobrevoando, ávida.

Lá, não tinha casulo, asas resistentes e a força a ser testada.

Ali, um casulo rompido, pequenas asas, a falta de força anunciada.

O anjo alegre avista a triste borboleta, faz das dele as asas dela, sobrevoa a cidade, e o que ela não pudera.

Ela fraca e agradecida pode ver a vida inteira, desde dentro do casulo até o mar que chega a beira.

O Anjo pousa com uma lágrima ao ver o ensaio de um voo.

A Borboleta amarela trouxe a luz de um dia novo.

O Anjo então agradecido, sorri e deixa que ela vá.

A borboleta num suspiro vai sorrindo sem penar.

O Anjo a toma nas mãos como uma Borboleta recém saída do casulo, que ainda não sabe voar.

Leva-a para o lugar mais alto e a faz então despencar.

Observa alguns instantes e nem pensa em resgatar, não há melhor maneira se não cair de voo, pra quem em vida só fez voar.