quinta-feira, março 3

Cego invisível

Sete e meia da manhã. Reunião importante. Acordou atrasado, com raiva do relógio que deveria ter despertado meia hora antes, não percebe que só reparou o relógio gritando meia hora depois.
Se arruma muito rápido. Abre a geladeira. Morde um pedaço com pressa de qualquer coisa e sai comendo.

Um minuto. é o tempo que o elevador demora, tempo suficiente para ficar irritado. “Nada nesse lugar funciona!” desconta no trabalhador da portaria que já se animava em lhe dar ‘bom dia’. Corre para o ponto, passa pelo lixeiro, pelo jornaleiro, mas nem se da conta. O Onibus para. Mais um ‘bom dia’. 

 Reclama o troco.

Alguém fala sobre o tempo. Faz um aceno com a cabeça, não há tempo pra falar sobre o tempo que faz.A reunião começa em vinte minutos, ‘maldito despertador’, pensa.

O ‘Bom dia’ da secretária passa despercebido como os anteriores, aperta o passo em direção a sala de reunião. É interrompido pelo chefe antes de alcança-la.

Demitido.

Não se conforma, não sabe pra onde ir. Pensa que pode ser bom. Pode ser bom não precisar pensar.

Assume a banca de jornal. 

Levanta cedo, prepara o café, arruma as revistas, varre a calçada. “Bom dia!” sorri ao transeunte engravatado sem nenhuma resposta, e pensa: Deve estar com pressa!

Guarda as revistas, vende o ultimo jornal. Tira o sapato, deixa a água bater em sua nuca.

‘Tive muita pressa quando tinha tempo. Eu era cego, hoje posso ver, mas sou invisível!’ – conclui.

 A água cessa.

‘Bom dia’ – Ele diz, e se satisfaz com a resposta alegre dos pássaros do meio fio.