segunda-feira, fevereiro 22

Suor e sono

Meu nome é john, sou advogado criminalista. O caso que vou relatar comprova como disse alguém cujo nome não me recordo, que a verdade é mais estranha que a ficção, porque não é obrigada a obedecer ao possível. Nos meus quase trinta anos de vida, dos quais dez, desço todos os dias do meu apartamento na zona sul para caminhar ao som de Paul McCartney no calçadão. Afinal, não é nada fácil tratar todos os dias de crimes e famílias e mães chorando e pais revoltados e tudo mais que se pode ter para contar um advogado criminal. Acho que é por ter tanto estresse que resolvi morar sozinho, assim só preciso resolver as minhas perturbações, mas como nada é perfeito, acabei ficando acomodado, e acima do peso. E como disse, pelo menos quando não estou no trabalho, só preciso resolver os meus problemas, tratei logo de entrar em uma dieta e comecei cortando os filmes de ação a noite, pois não consigo vê-los sem uma boa pipoca para acompanhar.

Depois de uma noite muito mal dormida, precedida do irresistível habito de vibrar com um bom filme antes de dormir, e sem a pipoca, o que faz toda a diferença. Dirigi como todas as manhas ate o escritório. Para minha surpresa, Ana, minha secretaria cujo vicio é a pontualidade, ainda não havia chegado. Paciente que sou, sentei em um degrau da escada, e comecei ali, as oito e quinze da manha uma serie de tentativas incansáveis e ligar para Ana, tentativas que mal sabia eu, durariam ate as nove, quando eu finalmente desisti e percebi que por mais organizada e pontual que fosse, Ana também falhava e estava na hora de andar com as chaves do escritório. Foram três horas um tanto quanto tensas, descobri todas as funções do meu celular, contei os degraus da escada, comi as cinco barras de cereal que encontrei perdidas pela mochila, fui ate o escritório da frente, tomei um café, e voltei para o degrau que já me permitia chamar de “meu”.

Algum tempo depois, não me recordo quanto, fui acordado de um profundo cochilo por uma voz estridente chorando e pedindo desculpas ininterruptamente; abri os olhos meio atordoado, reconheci Ana, e antes que eu pudesse perguntar o que tinha acontecido, começou uma movimentação, pessoas correndo e berrando no andar de baixo, a cada segundo a balburdia aumentava, e Ana chorava mais! ‘Mas o que é que esta acontecendo?’ – foi o que consegui perguntar antes de um policial aparecer apontando uma pistola para Ana e dizendo que ela estava presa por assassinato a quatro pessoas e desacato a autoridade. No mesmo segundo reconheci a história, eu estava tratando do caso, defendendo a família de uma das vitimas, assassinadas por Ana da silva Queiroz. Mas como eu deixei passar isso? Como ainda não tinha ligado os nomes? Como convivi comentando com a própria assassina os argumentos que usaria contra a mesma?

Meus pensamentos foram subitamente cortados pelo policial que nesse momento algemava e levava Ana que ainda chorava. Fiquei indignado com tudo aquilo, sem entender. E como a policia não soube disso antes? Nada fazia sentido e em meio a um turbilhão de pensamentos, fui novamente interrompido por uma voz estridente, chorando e pedindo desculpas ininterruptamente, abri os olhos meio atordoado e reconheci Ana, e antes que eu pudesse perguntar o que tinha acontecido, ela me contou soluçando, como tinha escapado de um assalto em que uma mulher havia matado quatro pessoas. Chamei um policial que passava e entreguei-lhe Ana, fui pra casa decidido a tirar férias, entrei em casa, tomei um banho, me joguei na cama já pensando no destino de minha primeira viagem, o telefone tocou, atendi meio confuso, olhei o relógio, eram dez e meia, e no telefone a voz estridente de Ana me acordava perguntando porque ainda não estava no escritório...