sábado, dezembro 25

Meu ouvido não é pinico!

Peguei um ônibus na calçada musical da 28 de setembro, que de musical já tem pouco, salvo a quadra de vila Isabel, que mesmo assim virou point de carros tunados tocando funk, nos dias de evento!
O calor é inevitável, assim como o ônibus estar lotado e eu atravessar a serra em pé, ate ai tudo dentro do esperado.
O problema de andar de ônibus, é ser obrigado a ouvir a voz de uma infeliz gritando “Soca nele, soca nele, joga só na cara dele!” no alto falante do celular alheio!
Não vou entrar no mérito do que esta sendo ouvido, caso fossem os Beatles eu reclamaria do mesmo jeito, mas já repararam que quem escuta Beatles não ouve música no alto falante do celular?
De qualquer forma não importa o que você ouve, não sou obrigada a ouvir junto. Na sua casa, no seu carro, no seu fone você ouve o que quiser e eu só posso lamentar por você não apreciar musica de verdade. Mas tenha a santa paciência, aturar musica no celular é pior do que aturar conversa no viva-voz do Nextel (não estou tão convicta disso)!
Não é possível que alguém entre no ônibus pensando: “vou colocar bem alto aquela musica da gaiola das popozudas e todo mundo vai curtir e começar a dançar!” Então, por favor, compre um fone. Qualquer camelô vende um fone porcalhão a menos de 10 reais, e de qualquer forma, quem compra um celular com mp3 player compra um fone de ouvido de qualidade considerável!
Ainda bem que nessa ocasião eu pude colocar meu querido fone de ouvido e desfrutar do Scenes From a Memory do Dream Theater, e felizmente não descobri a frase que vinha depois de “soca nele, joga só na cara dele....” !

domingo, dezembro 5

Me lembro que a um tempo atras na internet, vezenquando surgia alguem com "responde ai o meu quiz!", mas é uma parada chata que da trabalho ir naquele site que ninguem conhece, elaborar as perguntas, ficar mandando pras pessoas, insistindo pra que elas fizessem, no final todo mundo criava um que durava 2 horas e era esquecido.
Observando hoje o facebook, reparei quantos testes as pessoas fazem, são profundas reflexoes, 'Qual raça de cachorro voce seria?", "Qual é a cor que te define?" , "Qual o seu animal favorito?" , " Aonde você prefere encontrar seus amigos?", entre outras bizarrices...
Agora, da onde surgiu essa vontade incontrolavel de saber por exemplo 'qual função organica você é" ? ou "Qual jargão você mais usa?" ou "Voce é retardado nível 1, 2, 3 ou 4"?.
Enfim...É Obvio que ja me peguei fazendo alguns desses, mas vamos pensar um pouco: QUAL O SENTIDO DISSO? Te acrescenta em que saber "qual tipo de peso de papel voce seria"? Por favor, vamos dedicar um pouco mais de tempo a algo que faça um pouco mais de sentido.

Da série : Coisas da Web que não entendo!

Virei mais aqui a partir de agora.
aliás, 'A Partir de agora!" é um ótimo álbum do Oswaldo Montenegro, mas isso é papo pra outro post...

domingo, outubro 10

Tropa de Elite 2, e o povo...

4 meses depois, eu volto, e digo ao povo que fico! rs
O vestibular continua me consumindo. Sem tempo, sem paciência... Porém, mesmo sob pressão, estresse e adversidades, eu declaro por mais contraditório que pareça, o Vestibular é divertido!
Algumas coisas eu considero relevantes o suficiente pra sentar aqui e resenhar durantes longos minutos; Pensei no tal vestibular, mas só me pronunciarei sobre tal acontecimento depois de tê-lo concluído. Há algumas semanas, pensei em escrever sobre política, e achei que não valia à pena, mas ontem o Tropa de Elite 2 despertou em mim alguns sentimentos relevantes e de fato ele merece, minutos e minutos de reflexão...
Acredito que se encontre em uma categoria de poucos filmes na história do cinema nacional que tenham causado tamanho impacto. É uma análise nua e crua da situação caótica que estamos vivendo no Rio de Janeiro, com atuações incríveis, como a de Milhem Cortaz ( Capitão Fábio), André Ramiro (Matias), Sandro Rocha (Russo) e Andre Mattos (Fortunato), entre outros do elenco, a continuação da história surpreendeu, com uma narrativa emocionante e um conteúdo Atual, necessário e bem trabalhado. A Magnífica atuação de Wagner Moura, quase convence de que ele é o nosso herói, a pior parte, é ter que sair da sala escura e saber que todos os dias, capitães, secretários de segurança, governadores e delegados se prestam a papeis tão ou mais sujos quantos os apresentados no filme.
Muito melhor que o primeiro, tropa 2, a principio parece uma história brilhante, com roteiro bem montado, onde tudo se encaixa, o telespectador entra na tela e vive a história até ver os crimes desvendados, de dar inveja até no Jack Bauer! Mas o que torna a narrativa assustadoramente brilhante e completa, é um elemento muito simples utilizado durante todo o filme: A pura e simples REALIDADE.
Quem não identificou algumas de nossas lideranças? Quem não sabe que a milícia tomou conta da "Comunidade do Rio das ROCHAS"? Quem não entende que o que os políticos querem é a aprovação do povo desinformado?
O Fato das cenas terem sido gravadas em lugares que eu e você freqüentamos, nos da a sensação de desespero e ao mesmo tempo o conforto de pensar que mais dia menos dia, surgirá um capitão nascimento pra dizer numa CPI, a verdade na cara de todos os ladrões, corruptos e mafiosos que tomam conta da cidade. Descontamos toda a nossa ira a cada atitude acertada do Capitão nascimento e ao mesmo tempo, despertamos todo nosso medo e risco corrido pelo Beto, o pai, o marido, o cidadão indignado, como todos nós, que fala o que todos sabem, que enxergou além dos esquemas escancarados nos ambientes de poder, mas não é ouvido. José Padilha nos faz ao longo do filme chegar simultaneamente com Nascimento a conclusão que é fácil de chegar, e difícil de combater: O povo que se dane, a verdade não rende votos!
Usando uma frase do primeiro Tropa: "é o sistema combatendo o próprio sistema" é e vai ser por tempo indetermidado, também por termos no poder lideranças esdrúxulas interessadas somente em suprir seus interesses próprios, mas principalmente, será assim, enquanto o povo se contentar em ser alimentado por novelas e informações da imensa mídia tendenciosa a dar mais poder a quem já o tem.É Fácil, manter o povo ignorante, o mercado de votos, de cargos e de malas e malas de dinheiro sujo que entram e saem da minha, da sua, da nossa conta, da nossa casa!
O verdadeiro tráfico, nós alimentamos todos os meses, os maiores bandidos, NÓS, sustentamos a champagne, sushi e gravata alinhada, os maiores bandidos, são os que recebem os nossos impostos!
Confesso que tropa de elite nesse pós eleição deu uma acalmada nas minhas fúrias, pude me sentir outra vez parte de um grupo que pensa e se encontra observando estagnado as merdas que temos que nos submeter todos os dias! Tenho certeza que o Senhor governador eleito Sergio Cabral e companhia, assim como todos os outros eleitos, assistirão ao filme como uma brilhante obra de ficção, visto que algo parecido jamais aconteceria no governo deles. Lamento muito o fato de o filme não ter sido estreado antes do primeiro turno, pelo menos teria causado no eleitor uma maior reflexão sobre o sistema e o poder que possui na urna.
O Tropa 2, lavou minha alma, e ao contrário do que muitos estão sentindo, sai mais leve do cinema, com a ilusão de finalmente ter a mídia a favor do povo. Contudo, penso agora que sair mais aliviada do cinema possa ser MUITO, MUITO perigoso! Há o risco de descarregarmos nossas frustrações dentro do cinema e sair de lá esperando que o Capitão Nascimento resolva nossos problemas. Nossa segurança, nosso futuro, nossa educação, não podem ser tratados como uma obra de ficção! Espero que as pessoas sintam o pesado e violento tapa na cara que o filme propõe, e que percebam que quem esta ‘no saco’ somos nós! Espero que esse sentimento permaneça em todos durante esse clima de segundo turno, e se não for exigir demais, ate as próximas eleições.
Aos que ficarão por ai APENAS repetindo "Quer me fuder, me beija!", assim como repetiram "bota na conta do papa!", vocês não entenderam NADA, e provavelmente vão eleger nas próximas eleições alguém que vai rir sem te fazer rir! Quem sabe as eleições seriam melhores se e cada zona eleitoral exibissem cenas do ‘Tropa de Elite 2’ na fila da urna. O risco seria ter 100% dos votos anulados...

domingo, junho 6

<> Viva essa Experiência <>


Não abandonei de vez esse blog. Tenho muitas coisas escritas e sem tempo de revisar e postar.
Pois é, o vestibular ta consumindo, e falando em vestibular, hoje eu queria fazer um desabafo diferente, chega de criticar as pessoas e a sociedade escrota do planetinha principiante em que vivemos, hoje vou elogiar umas das raras coisas incríveis que tem aparecido na sociedade, e alguns talvez não me ouçam dizer isso desde os meus tempos de presidente do Grêmio estudantil, mas a verdade é essa: Eu amo ir pra escola! E vamos aos porquês...

Bem, acho que já fiz muitas coisas boas, já liderei muitas coisas legais, assim como já estive a frente de coisas que não concordava tanto, já ajudei a organizar, a criar a arrecadar, e será que isso é sucesso? Será que tive de volta todos os sorrisos que eu queria ter?
Pode parecer clichê ou hipocrisia, mas a verdade é que muitas vezes eu ralo só em troca de sorrisos, e o legal de estar à frente de pessoas que só querem um sorriso, é que é muito melhor que estar à frente de pessoas que só querem dinheiro ou algum serviço em troca. A alguns anos eu defini algumas metas pra minha vida, pra ser mais precisa, quando eu fiz 15 anos, minha mãe estava doente e eu tive medo que ela morresse, era um momento difícil, então resolvi escrever algumas metas e desejos meus, coisas que eu queria fazer na vida, pra ser e fazer as pessoas mais felizes, entre elas estavam:

"- Criar algo para ajudar as pessoas.
- não me preocupar muito em como vai ser daqui a muitos anos, me preocupar o suficiente!
- conhecer pessoas que me façam crescer!
- estar em lugares que me façam feliz
- unir ao meu lado pessoas que também queiram mudar o mundo, e achem que estão sozinhos.
- Acabar o ensino médio, sem tanto sofrimento!
- me dedicar mais aos estudos
- ter um diploma e fazer faculdade de preferência por um caminho não tão complexo.
- Fazer o que puder em auxílio das pessoas que estão ao meu redor.
- Acrescentar algo de bom na vida de todo mundo que passar por mim, mesmo dentro de um ônibus ou caminhando na rua, mesmo que seja um sorriso num dia difícil!
- não colaborar para a humanidade continuar no caminho errado que se encontra!"

Bem, desde então, eu tento colocar essas coisas em prática, é lógico que com o pequeno avanço da idade que já houve, pude perceber que algumas dessas metas são mais fáceis do que pareciam ser, e outras muito mais difíceis, mas ainda não é disso que quero falar. Eu sei que eu sou pela saco e tudo mais, e não tento esconder isso não, mas a questão vai alem do “pela saquismo”, é uma questão de identificação.

Eu já tentei duas religiões diferentes, por longos e prazerosos anos, já fui a culto, fiz coisas exotéricas, e mantenho minha fé na missa, porem, em lugar algum, fizeram com que eu me sentisse tão bem e tão em casa como no Intellectus. E não é só me sentir bem, é uma questão de pela primeira vez estar em um lugar que apoia e colabora para que eu cumpra as minhas metas de vida. Só para deixar claro, não estou Ganhando nada pela merchandising, e não vou ser aprovada a troco de elogios. Também pra deixar claro, não estou comparando uma empresa Laica a religiões ou seitas, não é isso, apenas quero dizer que achei nessa empresa laica o lugar onde os meus valores e princípios são postos frequentemente em pratica, o que não havia, e muitas vezes me decepcionou nas religiões e instituições nas quais estive. Pra não bater nessa tecla, cito também as empresas que trabalhei, e que muitas vezes preferi me retirar, mesmo tendo "poder", mesmo sendo "aclamada" pelas coisas que fazia, não sei fazer as coisas em troca de algo, em troca de favores, em troca de dinheiro, não APENAS por isso, muitas vezes recebi em troca coisas materiais e não fiquei realmente realizada.

Às vezes eu mesma me acho chata com esse discurso a favor dos sorrisos na humanidade, ate porque nem sempre eu consigo colocar isso em pratica, mas é bem sincero quando eu digo que acordo todos os dias e tento fazer isso ser cumprido. Em 2008 eu terminei meu ano letivo com uma ideia fixa na cabeça de que eu não precisava estudar para ser feliz, 2007 e 2008 foram anos longos e difíceis, e eu decidi que ia ser feliz pelos meus métodos e não pelos que o mundo me impunha. E mesmo com essa idéia fixa na cabeça, um grande amigo me disse: “Nat, o intellectus é a tua cara, pelo menos tenta!"
Hoje eu agradeço esse cara sempre que encontro com ele. Eu achei que eu nunca ia ser feliz tendo que estudar, eu não queria me submeter à competição, eu não queria ter que passar por cima dos outros por um sistema escroto como o vestibular. Eu cheguei ao intellectus Fechada, já cheguei me protegendo, esperando que me dissessem que eu deveria estudar muito pra ser o primeiro lugar, pra conseguir um diploma, pra estar à frente. E não foi nada disso, Eles me Quebraram pelo afeto, pelo apoio, pela segurança e confiança.

Pela primeira vez eu estou num lugar em que a pirâmide hierárquica não diz quase nada, onde os mais poderosos estão dispostos a aprender com qualquer um, onde o faxineiro toma café com o dono, onde eu passo mais tempo que na minha casa e ainda acordo com vontade de ir pra La.
Claro que como em tudo que é feito de humanos para humanos, o intell tem os seus defeitos e problemas a serem resolvidos, mas o que me encanta é a forma que os problemas são resolvidos, quase sempre todos saem ganhando.

O intellectus me devolveu ideais que eu não achava mais possíveis de serem seguidos, me devolveu uma ESPERANÇA a respeito da sociedade me mostrou que não estou sozinha, que existem ainda pessoas que acreditam que o mundo pode sim ser melhor.

Um lugar cheio de ciência, com grandes gênios, que acreditam na educação, na verdade dita com afeto, tem ali uma amizade e lealdade que poucas vezes vi a frente de grandes ONGs e obras sociais.
Eu espero encontrar na vida, muitas empresas, instituições e pessoas como as que encontrei aqui, mas no momento, vai ao Colégio e Curso intellectus, o meu MUITO OBRIGADO, por me devolver a coragem de continuar indo atrás das coisas que acredito Obrigado por 'Promover a oportunidades para meu crescimento pessoal e acadêmico’ , mas principalmente, obrigado por lembrarem que nesse mundo ainda é possível priorizar valores e princípios!

A alguns, esta respondida a pergunta de todos os dias: “ Nat, porque você gosta tanto do intell?” a outros, apenas o desabafo, e aos que já sabiam de tudo isso e ainda não entendem, procure a unidade mais próxima e matricule-se, com bom coração você vai entender! rs


'É mais que estudar, é viver!'
Viva essa experiência!
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domingo, abril 4

Ré, Organização!

Escrevo em uma folha velha, a qual eu não lembrava mais da existência; é a única que sobrou de um bloco imenso que eu comprei não me recordo o ano, para o inicio das aulas.

Minhas mãos estão sujas e o nariz coçando, é o preço que se paga pelo passo dado: hoje fiz algo diferente, algo útil, necessário, mas que não me agrada. Abri as gavetas, escancarei os armários e joguei tudo pro alto, e como quem se muda pra outra vida, joguei fora recordações, coisas que aprendi, muito do que deveria ter aprendido, boletins, cartões, marcas de histórias que não esquecerei.

Rasguei provas de amor eterno, e guardei numa caixa o que julgava passageiro.

O cheiro de mofo e passado me traz algo de triste, mas abro um sorriso, e como quem não tem muito a fazer rasgo também as coisas bobas, coo desenhos que fiz enquanto falava com ele ao telefone, mas já nem sei ao certo quem era ele.


Separo alguns papeis que julgo ainda validos, e vou enchendo uma caixa , mas é inútil. Ate quando? Quando será a próxima hora de abandonar o peso dessa caixa?
Penso com algo estranho no peito que o mais conveniente seria jogar tudo fora, tenho muitas recordações, muitos detalhes, tantos que nem preciso deles, sei cada um, e a cada um uma história que ainda contarei por ai, a quem interessar possa.

Vou olhando as datas, e tudo me parece estupidamente próximo e infinitamente distante.
Enquanto ensaco minhas emoções, penso no que sera feito, quem ainda as tocará? Sera que vão virar lixo e poluir a cidade?ou serão recicladas para construir utilidades? Mas não importa, nunca mais as verei, retratos de uma época que não voltara ,e que de nada me arrependo, se pudesse voltar, faria tudo igual, cometeria os mesmos erros, pois eles me fizeram o que sou.
O dia começa a clarear, vai apagando a noite, e com ela vai ficando encaixotada toda uma história, na ultima sacola, vai uma lagrima, junto com sabe-se la que época que eu amassei, penso curiosa que não estou triste, e que tudo que esta indo valeu a pena, e preciso fazer com que o que vem seja tao bom se não melhor.

Boto tudo na lixeira, olho uma ultima vez, e fecho a porta, junto com o ultimo pedaço de noite que ainda restava no céu, o sol toma conta; chegou a hora de tirar das mãos e do rosto esse cheiro de poeira e lembranças, tomo um banho para lavar o corpo e a alma, e saio nova. Novas paginas, novos recados, novas anotações que um dia jogarei fora como as de hoje.
Mas em suma, não é isso a vida? Sempre virando paginas? Renovando os cadernos e deixando-os pra traz.

Espero que na próxima arrumação, quem sabe daqui a uns dez anos, eu possa dar tantas risadas e tao satisfeita deixa pra traz uma época de sorrisos sinceros, amores eternos e batalhas vencidas.
Agora tenho espaço sobrando e gavetas vazias para usar, vou preenche-los com novos sorrisos.
Abro as janelas pro sol entrar,
e preencher de luz os espaços vazios,
que serão preenchidos com o tempo.

segunda-feira, fevereiro 22

Suor e sono

Meu nome é john, sou advogado criminalista. O caso que vou relatar comprova como disse alguém cujo nome não me recordo, que a verdade é mais estranha que a ficção, porque não é obrigada a obedecer ao possível. Nos meus quase trinta anos de vida, dos quais dez, desço todos os dias do meu apartamento na zona sul para caminhar ao som de Paul McCartney no calçadão. Afinal, não é nada fácil tratar todos os dias de crimes e famílias e mães chorando e pais revoltados e tudo mais que se pode ter para contar um advogado criminal. Acho que é por ter tanto estresse que resolvi morar sozinho, assim só preciso resolver as minhas perturbações, mas como nada é perfeito, acabei ficando acomodado, e acima do peso. E como disse, pelo menos quando não estou no trabalho, só preciso resolver os meus problemas, tratei logo de entrar em uma dieta e comecei cortando os filmes de ação a noite, pois não consigo vê-los sem uma boa pipoca para acompanhar.

Depois de uma noite muito mal dormida, precedida do irresistível habito de vibrar com um bom filme antes de dormir, e sem a pipoca, o que faz toda a diferença. Dirigi como todas as manhas ate o escritório. Para minha surpresa, Ana, minha secretaria cujo vicio é a pontualidade, ainda não havia chegado. Paciente que sou, sentei em um degrau da escada, e comecei ali, as oito e quinze da manha uma serie de tentativas incansáveis e ligar para Ana, tentativas que mal sabia eu, durariam ate as nove, quando eu finalmente desisti e percebi que por mais organizada e pontual que fosse, Ana também falhava e estava na hora de andar com as chaves do escritório. Foram três horas um tanto quanto tensas, descobri todas as funções do meu celular, contei os degraus da escada, comi as cinco barras de cereal que encontrei perdidas pela mochila, fui ate o escritório da frente, tomei um café, e voltei para o degrau que já me permitia chamar de “meu”.

Algum tempo depois, não me recordo quanto, fui acordado de um profundo cochilo por uma voz estridente chorando e pedindo desculpas ininterruptamente; abri os olhos meio atordoado, reconheci Ana, e antes que eu pudesse perguntar o que tinha acontecido, começou uma movimentação, pessoas correndo e berrando no andar de baixo, a cada segundo a balburdia aumentava, e Ana chorava mais! ‘Mas o que é que esta acontecendo?’ – foi o que consegui perguntar antes de um policial aparecer apontando uma pistola para Ana e dizendo que ela estava presa por assassinato a quatro pessoas e desacato a autoridade. No mesmo segundo reconheci a história, eu estava tratando do caso, defendendo a família de uma das vitimas, assassinadas por Ana da silva Queiroz. Mas como eu deixei passar isso? Como ainda não tinha ligado os nomes? Como convivi comentando com a própria assassina os argumentos que usaria contra a mesma?

Meus pensamentos foram subitamente cortados pelo policial que nesse momento algemava e levava Ana que ainda chorava. Fiquei indignado com tudo aquilo, sem entender. E como a policia não soube disso antes? Nada fazia sentido e em meio a um turbilhão de pensamentos, fui novamente interrompido por uma voz estridente, chorando e pedindo desculpas ininterruptamente, abri os olhos meio atordoado e reconheci Ana, e antes que eu pudesse perguntar o que tinha acontecido, ela me contou soluçando, como tinha escapado de um assalto em que uma mulher havia matado quatro pessoas. Chamei um policial que passava e entreguei-lhe Ana, fui pra casa decidido a tirar férias, entrei em casa, tomei um banho, me joguei na cama já pensando no destino de minha primeira viagem, o telefone tocou, atendi meio confuso, olhei o relógio, eram dez e meia, e no telefone a voz estridente de Ana me acordava perguntando porque ainda não estava no escritório...