domingo, fevereiro 15

Falta energia...


É o grande dia, ele acorda eufórico, passa a mão no telefone, ainda atordoado pela noite agitada, digita o numero dela, mas desliga antes do primeiro toque. Levanta, vai ao banheiro, lava o rosto, ajeita o cabelo, encara a própria face, sente-se forte, sente-se inútil, tem certeza que tudo Dará certo, pensa em desistir. Volta ao quarto, olha o telefone, o numero dela passa muitas vezes pela cabeça, mas a coragem falha. ‘Falta energia’, ele pensa. Cozinha, copo, leite, toddy, o gosto doce do chocolate aliviando o nó na garganta. Vai observar a rua, pensa que a poucos metros ela pode estar pensando nele, mas é difícil, é mais fácil estar pensando nela mesma, como sempre fez/faz. ‘Esquece isso!’ Ele pensa, pega o telefone, mas antes de seguir os números decorados ensaia um possível discurso. – alô? Então, estava pensando, não sei, quem sabe, nós, eu, quer dizer, você, enfim, podemos conversar? Entende? Só conversar, ou sair, ou... ou nada, ou só trocar um olhar, ou nem isso, esquece... – Ele não consegue, não suporta, tamanha a vontade de ter-la por perto, tamanho o medo, ele nem sabe mais se compensa, talvez seja tudo vontade de conquistá-la de novo, medo de perdê-la de novo, será que ele suportaria? Será que seria justo? Com quem? Será que o que ela tem a dizer vai agradar, ou será só um punhado de reclamações, lamentações e um ponto final? Não importa, ate as lamentações irão satisfazer, com tanto que ele possa alguns minutos fitar o olhar dela, quem sabe descobrir uma nova expressão? Ele pensa em ligar amanha, afinal, é melhor esperar, nunca se sabe como ela pode ter acordado hoje... Mas nunca se sabe o dia de amanha... Será que ela acordou nostálgica? Será que também sente falta de estarem juntos? Será que só restaram as mágoas?Agora ele vai ligar, engoliu o orgulho, esqueceu o medo... E esqueceu o ultimo numero, como pode ter esquecido?Não é possível, será um sinal? Será um aviso? Ele acha melhor ligar semana que vem, tudo vai estar mais tranqüilo. Ele se joga na cama, não entende porque não consegue, no momento isso nem parece tão importante assim, resolve esquecer, amanha ira a balada e beijara sete, serão sete tentativas inúteis de encontrá-la, sete buscas incoerentes daquele beijo, aquele abraço, em outros beijos, outros abraços. ‘Não é uma boa idéia!’ ele pensa. Agora ele vai ligar, não tem mais jeito, essa é à hora, sente-se forte, preparado, digita o numero como se o telefone fosse seu inimigo mortal.
Tuuuuuuuuuuuuuuuuu, tuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu... Alô?
È... Oi, alô, tudo bem?
Tudo, e você?
Tudo bem, quer dizer, nem tudo...
O que houve?
Não sei, sabe? Preciso de você, DIGO, precisamos conversar...
Agora?
Não sei. Tudo bem por você?
Tudo bem, só preciso de 15 minutos, tudo bem?
Okay, eu espero, esperei ate hoje...
(risos)okay,ate daqui a pouco!
Até!
Ele não acredita, bota o cabelo de um lado, bota pro outro, troca de blusa cinco vezes, começa a descer as escadas, volta correndo, pega a chave do carro e bota um perfume, da mais uma olhada no espelho, olha no relógio e ainda faltam seis minutos, passa pelo porteiro sem vê-lo, suando, coração latejando mais rápido que ele pensava ser possível, sai do prédio, olha a sua direita e vê que ela sai ao mesmo tempo, com um ar tranqüilo, roupa de ficar em casa, sandália havaiana, ela o vê e sorri. Ele sorri um tanto quanto desesperado, vai em direção a ela tentando olhar em outra direção, ela o observa sem medo, a pequena calçada que os separa ganha quilômetros nesse momento, parece que ele nunca vai alcançá-la, ele apressa o passo, ela ri, ele vai se aproximando e se desesperando, pois não sabe como cumprimentá-la, ela ri, ele não sabe por que, pergunta como ela esta e nem liga pra resposta, ela fala alguma besteira de colégio, ele responde de imediato e esquece no segundo seguinte, ela percebe que não é brincadeira, ele percebe que vai ser mais fácil que pensava, ela continua a mesma menina, a menina dele, eles trocam algumas palavras, ele diz que se arrepende, ela diz que não tem motivo, ele chega um pouco mais perto, ela diz que sentiu falta do perfume dele, ele não sabe o que fazer, ela respira de forma diferente, ele consegue sentir a respiração Dela, ela não sabe se esta fazendo o certo, ele pensa que não poderia estar em outro lugar, ela ameaça um beijo, ele não hesita e toma a iniciativa, ela se deixa levar, ele a abraça como segurança, como se por isso nunca mais fosse perdê-la, ela sorri, ele acorda eufórico, é o grande dia, passa a mão no telefone ainda atordoado de sono, digita o numero dela, mas desliga antes do primeiro toque. Levanta, vai ao banheiro, lava o rosto, ajeita o cabelo, encara a própria face enquanto nasce um grande embrulho no estomago, uma lagrima ameaça surgir, ele joga água no rosto, seca na camisa amarrota, observa de novo o próprio olhar e repete em voz alta tentando acreditar: ‘Engole essa lagrima, você é forte!’. Volta ao quarto, olha o telefone, o numero dela passa muitas vezes pela cabeça, mas a coragem falha. ‘Falta energia’, ele pensa...